segunda-feira, 20 de maio de 2013

CIDADE DE GOIÁS - GOIÁS

Quarta-feira de Semana Santa, noite de lua cheia. Na antiga capital do Estado de Goiás, os lampiões vão se apagando um a um, e o Centro Histórico, como nos tempos coloniais, fica novamente iluminado apenas pelo fogo de tochas. 
Nessa data especial, gente vinda de toda a parte se junta aos moradores para participar do Fogaréu, a procissão que simboliza a busca e captura de Cristo pelos guardas romanos. E continua sendo realizada desde 1745. Quem disse que não existe máquina do tempo? Pois é difícil não se deixar transportar ao passado quando, à meia-noite em ponto, um grupo de quarenta pessoas - vestindo túnicas coloridas com capuz pontudo - dá início ao cortejo. São os Farricocos, ícones da cidade. A procissão segue em clima dramático, cadenciada pelo ritmo de tambores militares enquanto as figuras seculares avançam descalças por ruas estreitas calçadas por escravos. 
Fundada durante o ciclo do ouro, a Cidade de Goiás preserva sua história, costumes e tradições, resistindo à passagem dos anos. Ao cair da tarde, quando o forte calor dá uma acalmada, seus moradores, os vilaboenses, põem cadeiras à porta de casa e puxam bate papo, sem pressa. A vida segue em outra rotação, saudável e tranquila. Mesmo em plena era da Internet, os sinos das igrejas, tataravôs dos meios de comunicação, permanecem vivos em seu papel. Basta perguntar aos mais velhos: conforme o repique e o tom, são anunciados missa, casamento, procissão e enterro; nesse último caso, badaladas graves para homem e agudas para mulher. Ao sinal, como antigamente, o povo pergunta o nome de quem se foi.
Quase tricentenária, a cidade tem lendas como a do enterro de ouro, escondido nos casarões para escapar do fisco real e causando a quem o encontrar doença grave ou morte certa. E também sobre a proibição da Irmandade da Misericórdia de tocar na corda do condenado à forca, para evitar que a peça levasse antecipadamente um banho de aguarrás e se partisse "naturalmente" na hora necessária, livrando o acusado de culpa pelo legítimo sinal divino.
Mas impressionante mesmo é visitar o Museu das Bandeirasonde funcionou a velha cadeia de 1766 até 1950. Qualquer um sente na alma a crueldade desumana de suas celas, asenxovias. Ali, sem camas nem luz do dia, o ambiente permanecia sempre úmido pelo sal jogado propositalmente ao chão de pedra. Como se não bastasse, não havia outro sanitário senão um grande barril, só retirado depois de cheio e que os próprios presos eram obrigados a carregar até o rio Vermelho para esvaziar. 
Este rio, por sua vez, tem ligação direta com o passado e formação do núcleo urbano. Foi em suas águas que o bandeirante Bartolomeu Bueno da Silva fez a descoberta do ouro de aluvião, fundando em suas margens o Arraial de Sant'Anna em 1726. Em sua homenagem, o arraial passou a se chamar Vila Boa de Goyaz, prosperando e permanecendo como capital do Estado até 1937, quando houve a transferência do poder político e administrativo para Goiânia. A mudança causou decadência no município, porém foi fator decisivo, juntamente com o declínio da produção de ouro ainda no século 18, para a preservação do conjunto arquitetônico setecentista, que afirmam os historiadores ser semelhante ao da cidade de São Paulo dos tempos coloniais. Casarões e igrejas começaram a ser tombados pelo
Patrimônio Histórico ainda na década de 1950, e graças ao esforço e dedicação da comunidade ganharam em 2001 o título de Patrimônio Mundial da Humanidade pela Unesco.
Desde então, o Centro Histórico passa por uma revitalização que já incluiu o aterramento de fios elétricos, postes, conclusão da rede de esgotos e despoluição do Rio Vermelho. 
As lembranças do passado glorioso ressurgem com a cidade bem cuidada e materializam-se por decreto durante o mês de julho, quando o governador vem ao Palácio Conde dos Arcos despachar e a Cidade de Goiás volta a ser capital por alguns dias.
Para ir a fundo e se encantar com história do lugar, nada melhor do que a obra de Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretãs, a Cora Coralina (1889-1985). Como boa vilaboense, Cora foi também doceira de mão cheia e soube como ninguém registrar em verso e prosa os relatos, passagens e registros de sua terra. A casa em que viveu, às margens do rio Vermelho, abriga um museu com objetos pessoais e é programa obrigatório para o turista. Pertinho dali, o Espaço Cultural Goiandira Ayres do Couto expõe parte do precioso acervo da pintora Goiandira, prima de Cora. No lugar de tinta comum, a artista usa mais de quinhentos tons de areias coloridas da vizinha Serra Dourada para retratar belas cenas da Cidade de Goiás e seu cotidiano. Em qualquer roteiro, não se pode deixar de conhecer a arte sacra colonial, reunida em seu próprio templo. Mais de mil peças produzidas nos séculos 18 e 19, entre elas as imagens de santos talhadas em cedro de José Joaquim da Veiga Valle(1806-1874), podem se admiradas no Museu de Arte Sacra da Boa Morte, na igreja de mesmo nome.
Em tempo: antes de sair a campo, o melhor é esquecer o carro e seguir a pé. Nada de salto alto - bom mesmo é um tênis bem confortável, mais adequado ao calçamento de pedras irregulares. Os monumentos, prédios históricos e igrejas ficam relativamente perto uns dos outros. E costumam guardar um lugar especial no coração de quem os visitam.
Fonte: uol.com.br/viagem

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